Ferrogrão: símbolo da paralisia nacional não sai do papel

O Brasil deve colher mais uma safra recorde de grãos em 2025. A produção agrícola crescerá 16% e alcançará impressionantes 340,5 milhões de toneladas. Mato Grosso, motor dessa engrenagem, ostenta números de país independente: se estivesse sozinho, seria o quarto maior produtor mundial de soja e algodão. Dentro da porteira, sobra eficiência, tecnologia e empreendedorismo. Mas quando chega a hora de escoar a riqueza produzida, o país trava na própria burocracia.

A prova mais clara desse atraso é a novela da Ferrogrão — ferrovia de quase mil quilômetros, ligando Sinop (MT) a Itaituba (PA), projetada para acompanhar a BR-163 e reduzir a dependência de rotas longas até os portos do Sul e do Sudeste. Anunciada em 2012, a obra segue emperrada. Já foram anos de estudos, revisões e debates técnicos.

Em 2020, o projeto chegou ao TCU, mas em 2021 o STF suspendeu tudo após ação do PSOL questionando a destinação de uma pequena faixa do Parque Nacional do Jamanxim. Resultado: mais um investimento estratégico paralisado pela interminável disputa judicial.

O debate ambiental é legítimo, mas também tem sido distorcido. O traçado da ferrovia aproveita a faixa já consolidada da BR-163, representando apenas 0,1% da área total do parque. Não corta terras indígenas e mitigaria problemas históricos da região: excesso de caminhões, engarrafamentos, altos custos logísticos e toneladas de CO₂ lançadas na atmosfera.

Mesmo assim, a obra segue refém de recursos, contestações e discursos políticos que ignoram a urgência da infraestrutura brasileira.

Há ainda quem diga que a Ferrogrão não é viável economicamente. Um estudo do grupo Amazônia 2030 sustenta que o retorno financeiro seria sete vezes menor que o estimado, exigindo subsídios governamentais. Mas técnicos do setor lembram que a BR-163 existe há meio século e que, se houvesse riscos geológicos ou climáticos impeditivos, a própria rodovia já teria enfrentado problemas insolúveis.

Enquanto isso, o país perde tempo — e bilhões. A safra cresce, a produção aumenta, mas o Brasil insiste em desperdiçar oportunidades ao transformar grandes projetos em reféns de disputas judiciais intermináveis. Não se trata de ignorar preocupações ambientais, mas de enfrentá-las com responsabilidade, buscando soluções, e não justificativas para a paralisia.

A Ferrogrão é mais que uma obra: é símbolo do dilema brasileiro. Produzimos como potência, mas escoamos como nação atrasada. Ficamos presos ao jogo de ações, liminares e recursos que nunca se resolvem.

No fim, quem paga a conta é o país inteiro — que vê a riqueza ser estrangulada pela incapacidade de transformar planejamento em realidade.

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